UNIFORMISMO E CATASTROFISMO
NÚMERO 7 – MARÇO DE 2000 – ANO 29
SUPLEMENTO DA FOLHA CRIACIONISTA NÚMERO 62


À medida em que o Evolucionismo foi sendo adotado como estrutura conceitual dentro da qual passaram a ser estudados os fenômenos da natureza, com a ascensão do Darwinismo, foi se estabelecendo também o conceito do Uniformismo, pela necessidade de justificar a ocorrência de fatos que não poderiam ser verificados experimentalmente no decorrer de “curtos” períodos de tempo. Surgiu assim o conceito de longas eras geológicas, durante as quais ter-se-iam originado a vida e ocorrido a evolução das suas várias formas vegetais e animais, até o ser humano.

O Catastrofismo


Foi Georges Cuvier quem, no início do século XIX, introduziu no estudo da então chamada “História Natural” o conceito de que o passado da história da Terra havia sido marcado por uma série de “revoluções” ou catástrofes ambientais. Em sua concepção, pelo menos três eventos testemunhavam a ocorrência dessas catástrofes – a extinção dos mamutes no fim da era glacial, a extinção dos mamíferos encontrados fossilizados em camadas rochosas mais profundas, e a extinção dos répteis gigantescos encontrados em camadas calcárias mais profundas ainda.

Essa concepção, em meados do século foi aos poucos sendo questionada, e substituída pelo conceito do Uniformismo, especialmente devido à crescente aceitação da estrutura conceitual evolucionista para a explicação da origem da vida e das espécies.

O Uniformismo

Foi Sir Charles Lyell, considerado por muitos como o pai da geologia moderna, quem divulgou o conceito do Uniformismo, também chamado de Gradualismo, em seu livro “Princípios de Geologia”, que tanta influência exerceu sobre Darwin. O Uniformismo acredita que os processos de transformação orgânica e inorgânica que são observados hoje são os mesmos que atuaram no passado, e com a mesma intensidade.

Muitos geólogos não concordam plenamente com essa posição, pois ela não é consistente com muito do que se pode observar na natureza, como por exemplo as evidências de intensa atividade vulcânica, de impactos de meteoritos e asteróides, derramamentos basálticos, surgimento repentino da vida no fim do período Precambriano, e as subseqüentes extinções dos amonitas, dos dinossauros, etc. Se aceitarmos as sedimentações em distintas camadas sucessivas, teremos de aceitar também a ocorrência de catástrofes correspondentes, e se não aceitarmos a sua ocorrência, teremos de postular a existência de grandes hiatos no registro das camadas sedimentares. Sob o prisma do Uniformismo resulta, assim, que os registros sedimentológicos e paleontológicos não são consistentes entre si, motivo pelo qual muitos geólogos evolucionistas fazem restrições à sua plena aceitação, embora de maneira geral continue ele sendo aceito como uma das pedras fundamentais do pensamento evolucionista.

O Neo-Catastrofismo

O pêndulo oscilante da história da ciência, partindo do Catastrofismo e indo até o extremo do Uniformismo, voltou mais recentemente a uma posição intermediária, que foi denominada de Neo-Catastrofismo. Embora ainda enfrentando resistências, o termo foi especialmente bem aceito no âmbito dos sedimentologistas, e aos poucos passa também a ser aceito em outros campos da Geologia, Biologia e Paleontologia.

Um dos eventos recentes que contribuiu bastante para a re-consideração da posição uniformista estrita foi a explosão do Monte Santa Helena ocorrida há cerca de 20 anos, no estado de Washington, nos Estados Unidos. A foto à esquerda, tirada no dia 12 de abril mostra o Monte com uma pluma de vapor d’água emitida em seu topo, já indicando o início de alguma atividade vulcânica anormal. À direita, a foto tirada em 30 de junho mostra os efeitos devastadores da explosão que destruiu cerca de 400 metros do cume, espalhando cinzas e detritos ao longo de uma distância de mais de 20 quilômetros.


A série de fotos acima, apresentada na revista National Geographic Magazine de dezembro de 1999, mostra a explosão do cume do Monte Santa Helena, ocorrida no dia 18 de maio de 1980.


Acima, à direita, uma “paisagem vulcânica” apresentada na Enciclopédia Compacta da revista “IstoÉ”, que permite comparar a vista externa do Monte, à esquerda, com a vista interna aqui representada através de um corte hipotético feito de uma forma vulcânica genérica.

Generalização do conflito entre concepções distintas –A “Anomalística”

John Haldane, famoso geneticista inglês, foi o precursor de um novo ramo da ciência, a que foi dado o nome de “Anomalística”, ao ter observado que “O Universo não somente é mais estranho do que imaginamos, mas mais estranho do que podemos imaginar“.

Muitos pesquisadores propuseram-se, de longa data, a elaborar elencos de tópicos que constituem “anomalias” em face das estruturas conceituais aceitas e em vigor em sua época. O conhecimento de tais anomalias, conforme a análise de Thomas Kuhn, filósofo e historiador da ciência, são de utilidade para, no momento oportuno, proporcionar elementos para a reconsideração dos paradigmas até então em vigor, e desencadear uma reestruturação deles, mediante uma verdadeira “revolução científica”.

Assim, a “Anomalística”, no campo das estruturas conceituais e idéias e concepções científicas, é a generalização do conflito que existe em particular entre o Uniformismo e o Catastrofismo.

 

Tipologia das anomalias

Algumas “tipologias” de anomalias cobertas pelo estudo da Anomalística têm sido propostas, podendo-se destacar dentre elas por exemplo a que considera as seguintes categorias:

1. Paradoxos
2. Deslocamentos
3. Improbabilidades
4. Desvios
5. Ocorrências inesperadas
6. Fenômenos inexplicáveis

Um exemplo de paradoxo é a natureza da luz, que ora se apresenta como ondulatória, ora como corpuscular. Um exemplo de deslocamento é a descoberta freqüente de répteis e anfíbios vivos em pequenas cavidades rochosas sem comunicação alguma com o exterior; nesses casos, além do deslocamento “espacial”, verificar-se-ia também o “temporal”, já que as rochas presumivelmente teriam milhões de anos. Um exemplo de desvio é o comportamento da água, a única substância que se expande, em vez de se contrair, ao solidificar. Outros exemplos poderiam ser dados para as demais categorias.

A categorização acima, além de sua subjetividade, não leva em conta a eventual superposição das categorias. De fato, por exemplo, todos os deslocamentos em certo grau são também paradoxais, improváveis, inesperados, pelo menos resistentes a explicações, se não inexplicáveis.

O fato é que existem anomalias, palavra que, ao pé da letra significa “não obediência às leis”, o que evidencia a nossa frágil concepção das leis que supostamente regem os fenômenos da natureza.

 

“Catastrophist Geology”


Em 1976 foi iniciada a publicação de uma revista periódica de circulação mundial, com o título acima (curiosamente com sua sede no Brasil), com a finalidade de discutir e divulgar o Catastrofismo. Para mostrar a vasta extensão dos temas cobertos pelos colaboradores da revista, todos eles pesquisadores altamente qualificados, apresentam-se a seguir alguns, a título de exemplo: aproximação e impacto de meteoritos, asteróides e cometas, astroblemas, tectitos, mudanças climáticas, mudanças do nível do mar, idades glaciais, tectônica de placas, orogênese, colisões continentais, tsunamis, correntes de turbidez, terremotos, vulcões e vulcanismos, derramamentos basálticos, origem da vida, fronteira entre Cambriano e Precambriano e entre o Permiano e o Triássico, extinções de formas de vida, sobrevivência de “fósseis vivos”, etc.

Estes temas, sem dúvida, enquadram-se em todas as categorias da tipologia das anomalias mostrada na página anterior, o que vem demonstrar a atualidade de sua discussão e a procura de novas interpretações, em face das incertezas e imprecisões que pesam sobre as abordagens usualmente aceitas como tendo o beneplácito da “ciência oficial”.

A referência feita na página anterior à “Anomalística” encontra-se no nº 3-2 de dezembro de 1978 da revista citada.

ALGUMAS EVIDÊNCIAS DE CATÁSTROFES
NA HISTÓRIA DA TERRA


Dentre as inúmeras ocorrências catastróficas verificadas na história de nosso planeta, destacaremos a seguir algumas que poderão ilustrar a variedade, a intensidade e a abrangência desses eventos.

CRATERAS DE IMPACTO

As crateras de impacto são produzidas pela queda de meteoritos ou asteróides sobre a superfície da Terra. Calcula-se que existam hoje cerca de 1300 asteróides com diâmetro superior a 1 km cruzando a órbita da Terra, dos quais 700 são classificados como do tipo “Apolo”, que têm a maior probabilidade de colidir com a Terra. Em 1937 um desses, que recebeu o nome de “Hermes”, passou a 800.000 km de distância da Terra (não mais de duas vezes a distância entre a Terra e a Lua). Se ele houvesse colidido com a Terra, ter-se-ia formado uma cratera de cerca de 20 km de diâmetro, liberando uma energia equivalente a 10.000 bombas de hidrogênio de 10 megatons de potência!

Cratera do Meteoro – 1,2 km de diâmetro

As maiores crateras de impacto

A tabela abaixo dá algumas características das cinco maiores crateras de impacto conhecidas:

Localização
Diâmetro km
Energia liberada
Sudbury – Canadá
140
2,1 x 10^30 ergs
Vredefort -África do Sul
140
2,1 x 10^30 ergs
Popigal – URSS
100
6,7 x 10^29 ergs
Puchezh – Rússia
80
3,1 x 10^29 ergs
Manicouagan – Canadá
70
2,0 x 10^29 ergs

 

Embora as crateras de impacto sejam rapidamente obliteradas pelo intemperismo, algumas dentre as maiores delas podem ser ainda reconhecidas, como por exemplo a Cratera do Meteoro, no Arizona, Estados Unidos (ao lado).

VULCÕES

Desde tempos remotos existem relatos de erupções vulcânicas de grandes intensidades, atingindo enormes extensões, e com sérias conseqüências. Além do mais, existem também evidências de derrames de lava que se solidificou, cobrindo milhares de quilômetros quadrados, com dezenas e centenas de metros de espessura, em várias regiões do mundo. Alguns desses derrames correspondem a um volume de lava da ordem de 100 a 1000 quilômetros cúbicos, ou seja, mais de 50 vezes o volume expelido pela famosa explosão do Krakatoa, na Indonésia, em 1883.

 

Lago de fogo expelido pelo vulcão Mauna Loa, no Havaí


O GRANDE CANYON

Uma das mais espetaculares vistas que se têm da atuação catastrófica da erosão fluvial é a do “Grande Canyon” do rio Colorado, no sudoeste dos Estados Unidos, passando pelos Estados de Utah, Arizona e Nevada. Suas dimensões são verdadeiramente colossais, com cerca de 450 km de extensão, atingindo larguras de até 30 km e cerca de 1500 m de profundidade.

Uma placa colocada no Centro de Informação em Bright Angel, na margem sul do Grande Canyon informa aos visitantes que “Nenhuma teoria conhecida pode explicar a existência do Grande Canyon“. Bastaria isso para nos apontar a grande complexidade existente nessa formação geológica singular! Entretanto, algumas considerações podem ser feitas tendo em vista confrontar os pontos de vista uniformistas e catastrofistas diante da realidade que se pode observar nesse gigantesco laboratório geológico.

Do ponto de vista catastrofista, toda a área deve ter sido sedimentada rapidamente, em seguida sobrelevada, e então aberta por uma rachadura. Se a formação do Canyon tivesse sido devida tão somente à erosão, teria necessitado cerca de 5 milhões de anos pelos cálculos uniformistas. Nesse caso, como fica evidente através da observação do paralelismo das camadas sedimentares ao longo de toda a extensão do Canyon, os estratos que teriam sido erodidos, supostamente cobrindo o intervalo de 500 milhões de anos de sedimentação (ainda de conformidade com as pouco prováveis hipóteses uniformistas), não teriam sofrido nenhuma outra erosão nesse período – o que seria altamente improvável dentro do próprio conceito uniformista.

 

O NASCIMENTO DE UMA ILHA JÁ IDOSA

A ilha de Surtsey, com 2,5 km2, situa-se a cerca de 30 quilômetros ao sul da Islândia, e surgiu devido a erupções vulcânicas ocorridas no leito oceânico, elevando-se a uma altura de mais de 170 m sobre o nível do mar, durante o intervalo de tempo decorrido entre 1963 e 1967. No clímax das erupções, chegou a ser expelida uma coluna de vapor d’água e cinzas a uma altura de 6 km, provocando precipitações de detritos ao longo de uma extensa área. Após o seu resfriamento, Surtsey tornou-se um grande laboratório de pesquisas biológicas, pois em muito pouco tempo foi ela extensamente povoada por abundante flora e fauna, como mostrado na literatura científica (Science, 28/11/75, referida na Folha Criacionista nº 11)). Imediatamente após o resfriamento, a partir de 1967, começaram a surgir musgos, liquens, e organismos menores abrigados entre eles, e logo depois, dentro de um período de dez anos, “chuvas” de esporos, sementes, e outras partes de cerca de 40 espécies de plantas vasculares, 158 espécies de insetos, e outros organismos “viáveis”, pelo ar e pela superfície do mar.

No livro Surtsy, de autoria de Sturla Fridriksson, da Associação de Pesquisas sobre Surtsey, o autor sugere que “as próprias flora e fauna da Islândia muito bem poderiam ter surgido, espécie por espécie, dentro do período pós-glacial, não havendo necessidade de supor, como muitos o fizeram no passado, uma origem mais antiga através de ligações terrestres com a Europa”.

O nascimento de Surtsey